Avó presa por seis meses após indicação de reconhecimento facial processa cidade de Fargo, nos EUA

Angela Lipps, de 50 anos, moradora de Elizabethton, no Tennessee (Estados Unidos), passou cerca de seis meses presa por furtos a bancos na região de Fargo, Dakota do Norte, um estado onde, segundo ela, nunca tinha estado, e a prisão partiu de uma indicação de software de reconhecimento facial.
Avó de cinco netos, ela processa a cidade de Fargo e o detetive Lucas Heck, da polícia local, e pede US$10 milhões de indenização numa ação apresentada em 15 de setembro de 2026 no tribunal federal da Dakota do Norte, segundo a emissora Valley News Live.
As acusações da ação são de prisão e detenção ilegais, violação do devido processo, acusação maliciosa e uma reclamação de direitos civis contra a cidade por suas regras e pelo treinamento dos policiais.
Como o nome dela entrou na investigação
Em abril e maio de 2025, uma mulher usou identidades roubadas e documento falso para tirar dinheiro de vários bancos da região de Fargo, e as câmeras de segurança das agências registraram a suspeita.
Um investigador da polícia de West Fargo passou pelo software de reconhecimento facial a foto do documento falso usado por ela, e o programa apontou uma foto de Lipps nas redes sociais como possível pista.
A ação sustenta que esse tipo de resultado serve só como pista de investigação e precisa ser confirmado por outros meios, e afirma que a própria polícia de West Fargo não considerava o resultado forte o bastante para justificar uma acusação.
Em West Fargo, segundo o processo, o uso da ferramenta é restrito a policiais treinados, com proibição de prender alguém apenas com base numa correspondência, enquanto a polícia de Fargo, de acordo com a ação, não tinha na época regras, treinamento nem supervisão para o uso da tecnologia.
O processo não diz que Heck operou o software, mas afirma que ele pediu o mandado de prisão sem investigar a fundo e sem motivo suficiente, mesmo sabendo que Lipps morava no Tennessee, nunca tinha ido à Dakota do Norte, não correspondia à descrição física da suspeita e não tinha dinheiro de origem sem explicação.
Segundo a ação, ela era diferente da suspeita no porte físico, nos traços do rosto e nas tatuagens, e o detetive não informou que a correspondência tinha saído da foto do documento falso, e não das imagens das câmeras.
“A tecnologia de reconhecimento facial por IA não deve ser usada como única base para extraditar e acusar uma pessoa”, diz o texto da ação.
Prisão e soltura
Em 30 de junho de 2025, a Dakota do Norte acusou Lipps de oito crimes graves ligados às fraudes, o mais sério com pena de até 10 anos de prisão, e emitiu mandado válido em todo o país.
Em 14 de julho de 2025, uma força-tarefa do U.S. Marshals Service a prendeu sob a mira de armas na casa de uma vizinha, onde ela cuidava das crianças da família.
Ela ficou presa no condado de Carter, no Tennessee, e depois foi extraditada para a cadeia do condado de Cass, na Dakota do Norte, com fiança de US$100.000 que não tinha como pagar.
A ação afirma que, na cadeia, ela ficou longos períodos sem remédios e sem a dentadura, que passou na prisão o Dia de Ação de Graças e o aniversário de 50 anos e que perdeu a casa, o carro e outros bens.
As acusações foram retiradas em 24 de dezembro de 2025, depois que o advogado dela, Eric Rice, apresentou registros bancários mostrando que ela estava no Tennessee quando os furtos ocorreram.
O que diz a polícia
Em entrevista coletiva em março de 2026, o então chefe da polícia de Fargo, Dave Zibolski, disse que o departamento “identificou alguns erros” na investigação e que os detetives de Fargo “presumiram erroneamente” que as fotos das câmeras dos bancos tinham sido enviadas junto com a foto do documento falso.
Zibolski disse também que a polícia de Fargo não tem tecnologia própria de reconhecimento facial e que, depois do caso, adotou novas regras e treinamento para o uso da ferramenta.
A prefeitura de Fargo informou que não comenta processos em andamento, e a ABC News não conseguiu falar com Heck.
Sobre o valor pedido, o advogado Rice disse que é “um número significativo”, mas que “reflete o dano específico” sofrido pela cliente.
Fonte original: ABC News, Meredith Deliso, 17.Set.2026.
Marcadores: reconhecimento facial, prisão indevida, inteligência artificial, Dakota do Norte, Estados Unidos.